Sonntag, Januar 21, 2001

JOSÉ
Debaixo de um céu cinzento, no meio da selva de pedra, rodeado por grandes edifícios, enfrentando a correnteza de inúmeras rodovias, no calor incessante das fumaças lá está ele: José. Anos de dor, luta, mãos calejadas, roupas manchadas de sangue e suor, que jorraram - e ainda jorram - na luta por uma vida melhor. Anos de miséria, trabalho, escravidão.
Cicatrizes. Inúmeras, profundas, irreparáveis. José, um ser entre milhões de habitantes, porém apenas um número entre eles. Um número, que mesmo depois de tantos anos de trabalho e sofridão, ainda luta pela sobrevivência.
Trocou a enxada na mão pela pá e vassoura, limpando as ruas da cidade. É agora gari em São Paulo, o mais bem-sucedido de sua miserável família, se é que assim pode-se dizer.
Acorda cedo, mora na Zona Leste e trabalha na Zona Sul, anda a pé. De outra forma não poderia ser, afinal, gasta-se muito na condução. Ônibus: luxo demais para ele. Não reclama, já está habituado a isso. Segue portanto qulômetros e quilõmetros de sua casa ao trabalho, debaixo de sol, chuva, no meio da escuridão e dos terrores urbanos. Mas ele segue.
Certo dia não pôde mais seguir. Estava em sua casa. Ele e mais 19 familiares que repartiam e dividiam cada metro quadrado, cada grão de arroz e feijão. Ouve-se tiros, nada que estivesse fora do normal para eles, já acostumados a isso. De um simples tiroteio a situação tornou-se uma guerra. Correria, pânico, incêndio.
O fogo, dentro de instantes, após poucos segundos de um começo inesperado e inexplicável tomou posse da situação. Destruição. Logo, a pequena casa de José também foi destruída, assim como todas as outras casas da favela, casas de pessoas como José. Não havia nada a perder, já que José não possuía nada, mas mesmo assim o fogo destruiu até o que José não possuía. Não ouve noite naquele dia, nem nos dias seguintes, não houve mais noite nem dia para José.
Aquele incêndio destruiu não apenas a moradia do gari, mas levou consigo todas as suas ambições, todos os seus derradeiros sonhos, levou José e sua família.
Mas afinal, quem realmente foi José? José sou eu, você, a sociedade. O incêndio é, portanto o governo corrupto, que destrói José, e portanto, a nossa sociedade. Mas nessa história há um erro: José parou de limpar, foi levado pelo fogo e parou de seguir.
O que nós precisamos portanto é fazer o José que está dentro de nós viver, sempre limpando as vias da sujeira e corrupção que há em nossa sociedade e nunca, nunca mesmo, deixar que o fogo da maldade nos carregue.

Rafael Nobre (21-01-01)